“Não há lugar seguro. Nada garante o improviso da intérprete, a certeza da obra, a funcionalidade dos passos. Não temos o que vender. DANÇAMOS! Não como latas na prateleira de cores, a qual os senhores brancos escolherão a de melhor aparência. Dançaremos JUNTES. Como as labaredas, como os trovões, como restos de estrelas cadentes, que só servem pra fazer verrugas!”
O Grupo Xingó existe há 18 anos como um grupo de teatro e de dança. Produzimos e circulamos nossa arte, investigando metodologingas próprias e experimentando outras formas possíveis de trabalho, mais espiraladas e não binárias, numa cosmopercepção contracolonial. Seja nas tarefas cotidianas da casa-sede, nas ações estéticas inseridas em contextos sociais de luta, no encontro com o público, na festa, nas criações e pesquisas, no debate intenso ou na itinerância: nossa dança ganhou corpo na vida em movimento, não no isolamento. Fortalecendo parcerias em movimentos, fóruns e redes, nosso processo foi construído a partir de uma poética que integra a arte à vida — e, por isso, se constrói nela.
O nome Xingó — água que corre entre pedras, evoca também a região do Rio São Francisco marcada pela passagem do cangaço nordestino, linha de pesquisa da companhia, que nos últimos anos tem se debruçado sobre as mulheres brasileiras inseridas em processos de enfrentamento ao capitalismo.
A trajetória de vinte anos ao lado das mestras Cristiane Paoli Quito e Tica Lemos consolidou como referência uma prática artística que integra contato improvisação, palhaçaria, dança-teatro e consciência corporal a partir dos fundamentos da educação somática. O intercâmbio com o Grupo Parlendas e Mestre Tião Carvalho, desde 2012, agrega as experiências do teatro de rua, da militância como prática artística e das matrizes populares do mamulengo e do bumba-meu-boi, conectando o trabalho a um circuito de mestres populares e territórios de resistência que redefiniram a atuação das corpas e da cena.
Xingó existe, teimosamente, há treze anos, como grupo de dança-teatro, na zona leste da cidade, produzindo e circulando arte, sistematizando metodologias do seu fazer, buscando outras relações de trabalho possíveis, mais horizontais, fortalecendo parcerias dentro da categoria e para além dela, em movimentos, fóruns e redes. Nosso processo foi construído por meio de uma poética que inclui o teatro à vida e que portanto se constrói nela. Seja por meio das tarefas aplicadas ao coletivo em relação à “casa-sede”, seja nas inúmeras participações estéticas em cenários sociais de luta, seja no encontro com o público, na festa, no debate intenso, na itinerância, incansável batalha pela práxis… Nossa dança-teatro ganhou corpo na vida em movimento, não no isolamento.
O trabalho, mescla do contemporâneo com o popular, no treino diário, no ofício/carpintaria dos corpos, abusa dos procedimentos da história oral para compreender uma história à contra-pêlo ligada às matrizes tradicionais e saberes da ancestralidade. Pesquisa de linguagem constante, num aprimoramento das técnicas, ampliação da percepção pelo treino da consciência, para, em movimento, dialetizar os conteúdos em espetáculos para rua e/ou espaços alternativos. Em 2016, verticalizamos o processo de formação do grupo, abrindo a casa-sede numa espécie de escola popular, onde experimentamos espaços de prática em: balé, contato improvisação, danças brasileiras e teatro de rua. O processo foi tão rico que explodiu as paredes de nossa sede numa parceria com o Teatro Arthur Azevedo, onde desenvolvemos projetos de aulas abertas no saguão, a Festa Xingó de Variedades e outros eventos e programações, nesse equipamento que é vizinho da nossa casa-sede.
Além dos espetáculos de repertório e dos cursos e treinamentos, o Grupo é responsável pela realização do Festival Curto Circuito, uma temporada anual itinerante em territórios de resistência como aldeias, quilombos e assentamentos do interior do estado. Também desenvolvemos um canal de youtube onde histórias de mulheres que consideramos fundamentais pela luta e pela vida, estão registradas em pequenos vídeos de até dez minutos. As nossas mulheres sapiens ou Heréticas. Temos na casa-sede uma cozinha e um ateliê, de onde produzimos alimentos e artesanatos que se tornam fundamentais para manutenção da economia da casa, da vida e do trabalho.
Nos últimos anos, temos aprofundado os estudos em referências africanas da diáspora, indígenas, arábes e camponesas, costurando narrativas inéditas entre literaturas invisibilizadas e corpas esquecidas. Mapeamos e articulamos territórios onde a dança e o teatro raramente chegam — aldeias, assentamentos, comunidades rurais e movimentos sociais — por meio de projetos itinerantes e do Festival Curto Circuito, criado há mais de 12 anos. O festival transforma as próprias comunidades em produtoras das atividades, que reúnem arte, cultivo, festa e comida. A FESTA XINGÓ e o FESTIVAL CURTO CIRCUITO são ações independentes criadas e organizadas pelo grupo, que já mapeou mais de 60 comunidades rurais do interior do Estado que nunca haviam recebido atividades culturais. Em 2023 assumimos a gestão da CASA DE RITA, Artes da Cena e da Terra, espaço em criação no Assentamento Antônio Conselheiro, no município de Mirante do Paranapanema, em São Paulo.
Há dez anos, o grupo mantém a casa-sede Tekoha, na zona leste, espaço de criação e formação que já recebeu aulas e cursos gratuitos de danças brasileiras, balé, teoria teatral, orixalidades, sonoridades populares, contato improvisação, aikido, teatro de rua, teatro de bonecos popular do nordeste, Body Mind Centering, Pilates, Danças Afro Diaspóricas, entre outras práticas. Essas atividades, frequentemente viabilizadas por projetos públicos, expandiram-se para o Teatro Arthur Azevedo, nosso vizinho e parceiro, onde realizamos três edições da FESTA XINGÓ, reunindo grupos e artistas de todo o Brasil. Atualmente, o grupo transita com 3 espetáculos de repertório, 2 festivais e seus treinamentos e oficinas.
Em 2007 nasce a Cia. Com-fé-só, numa pesquisa focada no diálogo e fricção de linguagens (dança/circo /teatro/ música), na mescla do contemporâneo com o popular, no treino diário, no ofício/carpintaria dos corpos, buscando pelos processos da história oral, compreender uma história à contra-pêlo ligada às matrizes tradicionais e saberes da oralidade. Pesquisa de linguagem constante, num aprimoramento das técnicas, ampliação da percepção pelo treino da consciência, para, em movimento, dialetizar os conteúdos em espetáculos para rua e/ou espaços alternativos.
As cinco integrantes, mulheres, mantém ensaios-encontros onde dança-teatro, culinária e música são eixos práticos simultâneos. A manutenção da casa-sede-aldeia configura um modo de vida, onde o cuidado com a horta, a faxina e a produção-escritório, são funções compartilhadas. Na sede urbana e na sede rural, a horta-jardim dá flores, alimentos e medicinas. O grupo mantém uma biblioteca com mais de mil livros, revistas e filmes para estudo.
Em 2013 o Grupo muda o nome para Xingó, que é água que corre entre pedras, e que é uma região do rio São Francisco percorrida pelo movimento do cangaço nordestino, atual pesquisa da cia., que nos últimos anos tem verticalizado o estudo sobre mulheres brasileiras inseridas em processos de disputa contra o capitalismo.
Contempladas já com prêmios e projetos de estado e município, nas linguagens de dança e de teatro, o grupo sustenta atualmente três espaços de prática: balé, contato improvisação e danças brasileiras, dois espetáculos de repertório, além de oficinas curtas e imersões/orientações para grupos.