SOBRE A OBRA

“Pra onde é que a gente vai agora? Não sei, estamos só estudando o caminho!” (trecho da obra)

OKAN traz uma poética que verticaliza o trabalho de consciência corporal e estado de presença das intérpretes, recuperando da dança seu caráter mais festivo, popular e alegórico, produzindo espaços de afeto que rompem os limites entre intérpretes e espectadores. O espetáculo mistura ficção e realidade, em uma dramaturgia assumidamente brasileira e engajada, das pesquisas que temos feito a partir de relatos de lideranças de suas comunidades. O histórico das mulheres do cangaço nordestino, as indígenas guaranis do Mato Grosso do Sul, as comunidades rurais do interior de São Paulo, as catadoras de resíduos de Maracaí, as Mães de Maio, a União das Mulheres, as mulheres pretas e quilombolas, as refugiadas espalhadas pelas periferias e as mulheres das famílias das integrantes do grupo. Narrativas que traduzem uma dimensão histórica e cultural, resultante de modos de sentir, viver e pensar coletivos.

Queríamos pesquisar as resistências das mulheres e isso foi alterando nosso modo de sentir, de produzir e de agir no mundo. Ainda em busca de uma estética que fizesse sentido com essa ética, iniciamos estudos em línguas bantas, iorubá, mitologia dos orixás, experimentos afro corpóreos. Costuramos delicadamente cada palavra do texto, que teve já quatro versões. Quando íamos estrear, a pandemia nos fez revisitar cada caminho. Voltamos pra sala de ensaio, num exercício árduo de desapego. Convidamos mais três artistas, mulheres negras, como nós. Thais Dias, Ana Flor e Helena Menezes se juntavam agora à direção de Juliana Pardo e às corpas de Erika Moura, Valquiria Rosa e Natália Siufi. 7 mulheres. Em abril de 2023, enfim, parimos OKAN! Nome dado pela escritora e mestra Waldete Tristão.

ESTE ESPETÁCULO carrega a busca de algo tão antigo quanto à própria humanidade. Uma síntese da resistência das corpas em luta, produzindo quadros que tragam o estranhamento necessário para compreensão desse cotidiano de resistência. Somos milhares! Corporificar, criar movimento através do som e das imagens. Sinestesia: experiências sensoriais. Fotograma em tempo real. Improvisação cômica. Matrizes Brasileiras como xaxado, cavalo marinho e bumba meu boi. As loas e passagens características do teatro de mamulengo. A pluralidade de ferramentas conquistando diferentes materiais corporais e nos aproximando dessa matriz ancestral, potente e reveladora. O refinamento do trabalho físico aliado à prática engajada e encontro com outras referências.

Dança levada à radicalidade: física, imagética, sonora, na investigação das redes de relações, alianças e parentescos que sustentam a cultura sertaneja brasileira e herdeira de sangue e culturas diversas, fundidas e talhadas no encontro com uma geografia e clima quase impenetráveis. Sertão que não se restringe ao nordeste, sertão concreto e sertão metáfora. A produção da vida, do alimento, as relações familiares, as medicinas, os cantos… em ritos que se assemelham, as mulheres determinam a cultura que nos torna gente de algum lugar. Foram mais de 70 horas de registros audio-visuais, além de anotações e fotografias, trazendo à tona o inconsciente coletivo de um povo colonizado, explorado e acuado, mas que resiste. Relações que alimentaram nosso imaginário, na busca dessa corpa que parta da afetividade e da construção de espaços de encontro potencializados pelo teatro e sua dinâmica. Não um retrato mimético, mas uma apropriação da experiência, transformada em corpo, em música e em movimento.

SINOPSE

OKAN quer dizer coração em IORUBÁ e é o nome do espetáculo que o Grupo Xingó demorou cinco anos para produzir. Sim! Cinco anos. Desde à confecção de cada figurino, à mão, na artesania dos couros de Mestre Romualdo (Arco Verde/PE), à realização de 17 entrevistas com as mais velhas e suas edições em pequenos vídeos para o Canal Heréticas, o estudo de movimentos com as danças do cavalo marinho, xaxado e contato improvisação, à juntada das mais de 40 camisetas de movimentos sociais, coleção da historiadora Astrogilda Pereira, cedida ao grupo, assim como a rede bordada à mão pela bizavó de uma das interprétes ou a estrutura forjada em ferro para pendurar nosso varal de bandeiras. Cada elemento desse espetáculo nasceu de nossas ancestralidades e pesquisas mais profundas, iniciadas em 2018.

 

 “As suspeitas são três mulheres foragidas conhecidas pelo nome de Boneca, Caveira e Viola. Os proprietários já colocaram as milícias à procura”  Seis corpas em cena. São mulheres? É ela, ele, elu? Bandidas? Andam em bando. Carregam um esqueleto. Roupas de couro. Movem-se juntas, mesmo que não ao mesmo tempo. Camuflam-se. Aos poucos, em suspiros sentidos ou quedas repentinas, escapam memórias de vida pelo caminho. Embaralhadas de nós, de dezessete antigas, lideranças de comunidade, caciques de aldeia, fundadoras de movimento, ex-presas políticas, pessoas. O medo, a fome, a resistência. Água pra deixar o rio correr. OKAN! Quem viu, verá. “Não saia de casa. Não se arrisque. Se souber de algo denuncie.”

HISTÓRICO DA PEÇA

Contemplada com dois fomentos à dança, o espetáculo já percorreu assentamentos do Pontal do Paranapanema, teatros distritais de São Paulo: Flávio império, Arthur Azevedo, grupos e coletivos parceiros de periferias (estopô Balaio, Pombas Urbanas, Heliópolis, Adebankê etc) e espaços de referência como Centro Cultural São Paulo. 

FICHA TÉCNICA

Realização: Grupo Xingó

Atuadoras-intérpretes: Erika Moura, Siufi, Valquíria Rosa, Ana Flor Carvalho

Direção Artística: Erika Moura

Dramaturgia: Siufi

Orientação Musical: Valquíria Rosa

Okan (operação de som e trilha): Maria Helena Menezes

Okan (co-direção):  Thais Dias

Okan (direção):  Juliana Pardo, da Cia. Mundu Rodá

 (figurinos e elementos cênicos): Mestre Romualdo Freitas e Ateliê Xongani

Manutenção das Corpas: Mara Guerrero

Fotografias do Varal: Veronica Pereira e Clara Figueiredo

Rede e bordados do pano: Margarete Siufi

Camisetas (acervo histórico): Astrogilda Pereira

Mulheres Sapiens (entrevistadas): Maria Thaís, Yasmin Nóbrega, Marisa Fernandes, Patrícia Borges, Maria Arapoty, Clotilde da Silva, Janete Ferreira, Marianna Monteiro, Terezinha Ferrari, Amelinha Teles, Lígia Rosa, Cristina Mendonça, Astrogilda Ferreira

 

Voz do Rádio: Mahat Descartes 

Poesia Ave Maria: Luciene Nascimento

Boneca Quitéria: Mestre Zé de Dona Vina, Lagoa de Taenga (PE)

Cancion sin Medo: Vivir Quintana, traduzida livremente por Valquíria Rosa



RIDER TÉCNICO

Feito na rua ou espaço alternativo, o grupo leva todo equipamento necessário. Se houver mesa e duas caixas de som para operação da trilha, não levamos o nosso. O cenário é uma rede de ferro para instalação de varal em uma área mínima de 6mx6m, por 4m de altura.

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